Histórias de Escolas (1)

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Se houve uma época em que todos nós re­cordamos com saudades, certamente os anos de Escola estarão em primeiro lugar. Apesar de alguns sustos e desilusões, a escola sem­pre acabou por nos proporcionar momentos alegres e divertidos, seja por parte de colegas ou de professores. É verdade que em alguns casos até mesmo uma guerra poderia ter sido declarada, e foi o que aconteceu em 1953, quando cursava a quinta série primária na Escola Rotary, na Freguesia, aluno de Dona Georgette. Naquela ocasião tinha o hábito de me distrair com as menores coisas, ou então entabular conversas intermináveis com o co­lega vizinho, o que acarretava uma série de repreensões e castigos. Dali a pouco tempo já havia certa animosidade entre eu e a mi­nha professora. Depois de vários dias “sem saída”, ou tendo que escrever como castigo 50 vezes frases intermináveis, resolvi tramar uma terrível vingança: lá no fundo do pátio havia um enorme filtro “Fiel”, com três velas que, pelo seu tamanho, deveria comportar cerca de uns 100 litros d’água. Era perfeito para o meu objetivo.
– Professora, posso ir beber água?
– Hum, hum…
Poxa, Dona Georgette deveria estar real­mente muito brava comigo. Nem falou nada! … Apenas resmungou! De dentro da surrada pasta de couro, retirei o meu copo, daqueles com três anéis que se encaixavam, e atraves­sei o pátio… Perfeito! Ninguém a vista. Todos concentrados em seus deveres.
Abri a torneira, enchi o copinho… Bebi tudo rapidamente e fui embora. A torneira permaneceu aberta, inundando todo o pátio. Evidente que o suspeito número um, pelo menos para Dona Georgette era eu, mas… E as provas? De nada adiantou ameaçar, falar e berrar. Pelo menos ela tinha um forte senso de justiça, e desta vez eu consegui escapar. Havia finalmente me vingado dos castigos!
Ainda por causa dos meus devaneios e conversas, certo dia fui “convidado” por meio de puxões de orelha a sentar em um canto da mesa da professora . Ficava mais perto para ela me vigiar, e além de que não poderia mais desenhar nas orelhas do caderno. Mas aquele enorme filtro continuava me desafian­do. Imaginava-o como um monstro disforme, sobre longas pernas finas, pronto a atacar a um incauto. Até que em certo dia, depois de ser informado de que estava “sem saída”…
– Professora! Posso ir beber água?
– Hum, hum…
Claro que ela estará de olho em mim todo o tempo! A coisa deve ser feita com muito cuidado… A sala de Dona Emiliana, bem ao lado da minha, como sempre, permanecia fechada… Tudo perfeito!
Bebi a água, deixei a torneira aberta até começar a se formar uma enorme poça. Nin­guém à vista. Pisei na água e saí deixando as marcas até o tapete defronte da sala de Dona Emiliana. Passei o sapato no tapete até a sola secar bem e parti para a minha sala de aula.
– Dona Georgette, já voltei! Não deu para beber água. O pátio está todo inundado, olhe só! Mas desta vez deixaram as marcas. A Senhora não vai poder dizer que fui eu…
Da próxima teria que inventar outra. Já tinha abusado demais da sorte!

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