O Passado no Presente

Polícia e ladrões

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No início do século XX, a segurança na Ilha carecia de uma melhor atenção por parte das autoridades. Eram comuns as rixas entre os mo­radores, muitas vezes provo­cadas pelo excesso de bebidas alcoólicas. Na tentativa de coibir os excessos, o Chefe de Polícia do Distrito Federal, Dr. Leoni Ramos, designou, em 1910, como Delegado do 28º Distrito Policial, localizado na Rua Formosa do Zumbi, que tinha como escrivão Pio Dutra da Rocha, o Bacharel Solfieri de Albuquerque.

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Delegacia de polícia e posto dos Correios, em foto de 1910

 

Ao assumir o cargo, o n­vo Delegado ficou surpreso com a precariedade do local de trabalho: uma constru­ção com cerca de 30 metros quadrados, sem forração e iluminada à querosene, que atendia a Delegacia Policial e a repartição dos Correios. Usando de seu prestígio junto às autoridades governamen­tais, Solfieri conseguiu que um prédio, pertencente ao comerciante José Arcênio, localizado na Rua Formosa, nas proximidades do Rio Je­quiá, fosse alugado para que lá passasse a funcionar a De­legacia, que passou a abrigar também um destacamento de Cavalaria e Infantaria. Na década de 1930, houve uma nova mudança para outro pré­dio, localizado quase defronte ao antigo imóvel.

No entanto, o tempera­mento autoritário de Solfieri não foi aceito pelos mora­dores, acostumados a não seguir leis e regulamentos, iniciando-se, então, uma série de prisões. A velha cadeia localizada no Zumbi tornou-se pequena para tanta gente. Alguns foram proibidos de permanecer na Ilha, como o morador Ignacio de Mattos, expulso em 1910. Não esca­pou nem mesmo o professor Hilarião da Rocha, que teve de pedir a interferência do Chefe de Polícia. Moradores desobedientes tinham até mesmo as suas casas picha­das por ordens do Delegado. Durante muitos anos, o 28º Distrito Policial funcionou no prédio da Rua Formosa, no Zumbi, ao lado da repartição dos Correios. Em meados da década de 1940, as condições do imóvel já eram precárias, com goteiras e paredes neces­sitando de reparos.

A algazarra feita por al­guns daqueles que se encontravam no xadrez incomodava bastante a pacata vizinhança. Devido a alguns regulamentos que vigoravam desde a época do Estado Novo, o simples fato de o indivíduo não possuir um emprego era motivo para ser levado até a Delegacia Policial e ser autuado como vadio, permanecendo no xadrez até que um processo fosse iniciado.

Devido à fuga da delegacia do Zumbi de um dos poucos “ladrões de galinha” da Ilha, mais conhecido por “Vaca Ma­lhada”, que escavou durante a madrugada um buraco na parede dos fundos do xadrez com uma colher de sopa, as autoridades decidiram que era hora de se mudar do prédio da Rua Formosa. Como as obras no Guarabu ainda estavam nos alicerces, a Delegacia foi transferida, provisoriamente, para o an­dar térreo do Palacete Santa Cruz, no Jardim Guanabara, onde funcionaram, um dia, as cavalariças do prédio, ao lado da Capela Imperial de N. S. da Conceição.

Mais uma vez, a constante algazarra dos detentos e o movimento de veículos com toques de sirene, inerente às atividades da polícia, acaba­ram por tirar o sossego dos vizinhos, que pressionaram as autoridades para que as obras do posto policial do Guarabu fossem concluídas.

Em maio de 1952, com as obras ainda incompletas, a Nova Delegacia, na Es­trada do Galeão, começou a ser ocupada. No entanto, o xadrez ainda não havia sido concluído, obrigan­do aos policiais a adota­rem uma solução bastante original, utilizando-se de parte da carroceria de um dos “Tintureiros” (viaturas policiais de médio porte), instalada junto ao prédio em construção, próximo à calçada defronte à delega­cia. Uma autêntica “dele­gacia móvel”, como foi ra­pidamente apelidada pelos moradores da Ilha.

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