O Passado no Presente

O paraíso perdido: Portuguesa

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O bairro mais recente da Ilha, a Portu­guesa, possui atualmente cerca de 25 mil habitantes, delimitando-se com o Galeão, Jardim Guanabara, Jardim Carioca e Moneró. A área ocupada pela Portuguesa, devido às suas características, foi provavelmente o local de um dos aldeamentos temiminós da Ilha do Governador, cujos vestígios foram soter­rados por sucessivos aterros. Até mesmo o riacho que cortava a Estrada do Galeão foi canalizado.

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Vista da Portuguesa, em foto de 1974

Até a década de 1950, toda a região era coberta pela mata nativa, permeada com alguns eucaliptos, que entrava pelas terras da antiga Fazenda dos Beneditinos e iam até as praias e morros de Itacolomi, Flecheiras e Tubiacanga. Era possível encontrar, entre ruínas seculares, algumas colônias de pes­cadores. Interessante observar que aquela foi a última área insulana civil com matas preservadas, pois fazia parte da metade da Ilha que foi assumida pelo governo a partir do final do século XIX.

A ocupação do local iniciou-se com a construção do Jockey Clube Guanabara, uma iniciativa de Valentim M. Bouças, A. J. Peixoto de Castro e outros investidores, em terras da Cia. Imobiliária Santa Cruz. Com o lançamen­to da Pedra Fundamental do Jockey, em 1957, e a venda dos títulos de sócios-proprietários, no ano seguinte, as obras foram iniciadas. Parte dos morros começou a ser aplainada e, junto de uma planatação de eucaliptos onde havia uma bica para abastecimento de água, foram construídas as cocheiras.

Inaugurado em 1961, o empreendimento pouco durou, devido às restrições impostas pelo Governo Jânio Quadros quanto à reali­zação das corridas de cavalos. As instalações foram então adquiridas pela Associação Atlética Portuguesa, que criou o Estádio de Futebol Luso-Brasileiro. Sua inauguração oficial ocorreu no dia 2 de outubro de 1965, com a partida entre Portuguesa e Vasco da Gama. Aos sete minutos do primeiro tempo, o atacante Zezinho, para tristeza da torcida local, fez o primeiro gol para o Vasco. No segundo tempo, mais animado pela torcida e tendo recebido novas instruções do técnico Denoni, parecia que a Portuguesa caminhava, ao menos, para um empate. No entanto, aos 14 minutos da etapa final, em um ataque à longa distância, o mesmo Zezinho fez com que a bola se elevasse a uma altura inima­ginável. Tudo indicava que ela cairia pouco depois do meio de campo. No entanto, um elemento até então desprezado surgiu do nada: ao atingir o ponto mais alto, a bola al­cançou uma forte corrente de ar proveniente da Praia dos Gaegos, fazendo com que ela descrevesse uma nova trajetória, totalmente imprevista, e tomasse o inesperado rumo do gol. Dois a zero para o Vasco! A partir daí, o campo passou a ser conhecido por “Estádio dos Ventos Uivantes”.

Dando prosseguimento à urbanização do bairro, em 1965, foi aberta a Rua Haroldo Lobo. No ano seguinte foi a Rua Gustavo Augusto de Resende e, a partir da década de 1970, sua expansão foi mais acelerada. Em 1971 surgiram os loteamentos próximos à Rua Gustavo Augusto de Resende e, no mes­mo ano, surgiu a Rua A (atual Eduardo Na­druz), ligando a Rua Haroldo Lobo à Estrada de Tubiacanga. Em 1976 houve o loteamento de uma grande área entre a Avenida Maestro Paulo e Silva e a Estrada de Tubiacanga, co­nhecida por Morro do Urubu, onde estavam as antigas cocheiras, constando de 266 lotes de terreno, 12 ruas e várias praças, com traça­dos curvilíneos, dando origem ao Condomínio Village da Ilha, que foi construído pela Coo­perativa Habitacional da Ilha do Governador, sendo composto por oito blocos com 1.276 apartamentos e 514 casas geminadas, muitas das quais foram descaracterizadas, fugindo à filosofia original do projeto. No trecho da Praia dos Gaegos, onde havia um vasto manguezal, conhecido por Praia do Chiclete, iniciou-se, em 1973, a ocupação irregular dos terrenos, a maioria feita por trabalhadores das empreitei­ras contratadas para as obras de construção do Aeroporto Internacional, dando origem à comunidade do Parque Royal.

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