O Passado no Presente

O paraíso perdido: Jardim Guanabara

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A história do bairro remonta a 1873, quando a Fazenda Conceição foi adquirida pela Com­panhia Cerâmica Santa Cruz, que tinha como proprietários Augusto e Ernesto Gomes. O obje­tivo da sociedade era a exploração das reservas de argila existentes na área. A primeira provi­dência da empresa foi construir uma pequena unidade fabril para a produção de materiais a serem empregados na construção da sede da empresa e na fábrica de produtos cerâmicos. Em 1878, o forno principal já se achava instala­do e, em pleno funcionamento, poderia produzir cerca de 45 mil tijolos ou telhas por dia. Anos mais tarde, passou a fazer parte da Empresa Territorial e Construtora, sendo, posteriormen­te, negociada com o Coronel Elias Antônio de Moraes, que em 1903 a vendeu para a Com­panhia Lavoura e Colonização de São Paulo.

Jardim Guanabara - Rua 28 - ferradura - 1938- EDIT (1)

Rua Uçá, ao centro, em foto de 1938

Começaram a surgir na imprensa boatos quanto à venda da Companhia Cerâmica Santa Cruz para o Conde Matarazzo e o Dr. Joaquim Sampaio Vidal. Na realidade, Vidal e Eduardo Cotching, acionistas de uma empresa imobi­liária em São Paulo, haviam se associado ao deputado José Antônio de Moraes e a P. Simongi para a exploração de terrenos na Ilha, onde funcionava a Cerâmica Santa Cruz. Em 1926, aparece nos noticiários pela primeira vez o nome de Jardim Guanabara.

Pouco depois, Vidal, presidente da Compa­nhia Cerâmica Santa Cruz e que tinha sido Mi­nistro da Fazenda durante o governo de Arthur Bernardes, decidiu encerrar as atividades da empresa e lotear as terras. O plano urbanístico do loteamento foi elaborado pelo escritório de Jorge de Macedo Vieira, que, de 1925 até 1931, desenvolveu o projeto, tomando por base o conceito de “cidade–jardim”, surgido em 1917, na Inglaterra. O traçado das vias do Jardim Guanabara acompanhava os aclives e declives do terreno, a fim de se adaptar ao relevo do terreno, onde a única área plana era aquela situada nas proximidades da antiga fábrica de produtos cerâmicos. Tal procedimento permitia que os lotes fossem bastante diferenciados, evitando uma massificação dos projetos ar­quitetônicos.

A área a ser urbanizada era de cerca de 3 milhões de metros quadrados, destinada a uma população de 20 mil habitantes (atualmente ela é o dobro da prevista). Estavam previstos locais para parques e jardins, com ruas dife­renciadas para pedestres e veículos. Uma das preocupações da Companhia Imobiliária foi preservar o antigo palacete, transformando-o em sede da nova empresa, e a Capela Imperial de Nossa Senhora da Conceição, preparando em seu entorno um jardim, servindo de adro.

O calçamento era uma novidade: as ruas seriam tratadas com uma camada de saibro, também empregado nas cidades–jardim da Inglaterra. Em seguida, seria aplicada uma camada de areia, oferecendo mais conforto para os pedestres. Este procedimento só foi empregado nas vias principais. Os lotes teriam cercas vivas, determinadas pela Companhia Imobiliária, evitando-se o uso de muros opacos. As plantas seriam fornecidas por um horto, criado especialmente para esta finalidade.

Em 1954, a empresa colocou à venda lotes de terreno com alguns melhoramentos, como a construção do “Reservatório Mãe dÁgua”, urbanização própria e a proximidade com a Cidade Universitária. Mas em algumas ruas, localizadas nas partes mais altas, o abasteci­mento de água e de energia elétrica ainda não estavam disponíveis. Em vista disso, o uso de poços era inviável, o que fez com que, no início da década de 1960, um grande número de lotes de terreno ainda estivesse disponível.

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