O Passado no Presente

O “Padre Eterno”

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Ao receber parte da Ilha de Paranapuã, Salvador Corrêa de Sá certamente deve ter observado o solo argiloso, característico da região, e resolveu construir um engenho de cana de açúcar. Não é possível afirmar que este tenha sido o primeiro engenho a se instalar no Rio, uma vez que Cristóvão de Barros, em 1566, provavelmente já havia instalado um engenho, na região de Magé.
O local exato deste empreendimento em Paranapuã se perdeu no tempo, sendo provavelmente localizado na região atualmente situada entre a Praia de São Bento e o Jardim Guanabara, na antiga “Praia do Engenho Velho”, onde existiram ruínas que poderiam ter sido do engenho, destruídas pela ocupação imobiliária, como relata a historiadora Cybele de Ipanema.

Graças a Salvador Corrêa de Sá, a Ilha – já conhecida por “do Governador” – pas­sa a ter grande importância econômica. Quanto à parte recebida por Ruy Gonçalves, poucas informações restaram. Através de heranças, as terras passam para as mãos da viúva de Miguel Ayres Maldonado, Dona Bárbara de Castilho, que as transacionou pelo valor de 200$000 (cerca de R$ 200.000 em 2013), para Salvador Cor­rêa de Sá e Benevides, neto de Salvador Corrêa de Sá – o velho.

Obtendo contratos com a Coroa Portuguesa, Salvador Corrêa de Sá e Benevides comprometeu-se a construir embarcações, escolhendo a Ilha como local para a instala­ção de seu estaleiro. Deveria ser um local plano, com cala­do suficiente e abrigado das intempéries. O pontal oeste lhe pareceu o mais adequado e corresponde, atualmente, à Ponta do Galeão. Ficou na his­tória um enorme galeão, que teve a sua construção iniciada em 1559, com a finalidade de proteger as costas brasileiras contra ameaças e ataques dos navios da Companhia Holandesa das Índias Ociden­tais. Com 53 metros de comprimento e 2 mil toneladas, o “Padre Eterno”, tal como fora batizado, foi lançado ao mar em 1663. Seu mastro principal era constituído por um tronco com 2,97 metros de circunfe­rência na base (cerca de 90 centímetros de diâmetro).

Para construí-lo, Salvador Corrêa de Sá mandou trazer artífices da Inglaterra, em­bora os mestres e artesãos coloniais tenham feito a maior parte da embarcação com a ajuda da mão de obra indíge­na. O “Padre Eterno” passou por Lisboa em novembro de 1665, causando forte im­pressão junto às autoridades europeias. Ficou conhecido como o maior barco da época, embora o navio sueco Kronan, de 2.200 toneladas, e o fran­cês Soleil-Royal, de 2.500, fossem pouco maiores. O ga­leão brasileiro usava madeiras nativas leves, bem diferente do material empregado nas embarcações europeias. O “Padre Eterno” naufragou anos após o seu lançamento, no Oceano Índico, em data e condições desconhecidas. Do mesmo local de onde foi lançado ao mar, também saíram outras embarcações, tais como a fragata de guerra “Madre de Deus” e o navio “Capitânia Real”. A tradição de pioneirismos na região do Galeão estava se iniciando.

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Gravura do “Padre Eterno” no rio Tejo, no livro Description de l’Univers, de 1683

 

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