Memória

Escritora Rachel de Queiroz, que morou por 12 anos na Ilha, foi homenageada até pelo Google

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No dia 17 de no­vembro de 2017, o Google postou uma homenagem à es­critora cearense Rachel de Queiroz, exibindo a ilustra­ção acima na sua página de abertura. Isso porque fazia 107 anos de seu nascimento. Rachel, que foi eleita em 1977 para a Academia Brasileira de Letras, faleceu no Rio de Janeiro, para onde havia se mudado em 1944, no dia 4 de novem­bro de 2003.

No Rio, a escri­tora residiu por 12 anos na Ilha do Go­vernador, na Cova da Onça, na conflu­ência das Ruas Car­los Ilidro e Marquês de Muritiba. Além de publicar seus romances, escre­via também para a revista “O Cruzeiro” e os jornais “Cor­reio da Manhã”, “O Jornal” e “Diário da Tarde”.

Em uma de suas crônicas, no iní­cio da década de 50, referiu-se ao Iate Clube Jardim Guanabara, recém-fundado, elogian­do seu ambiente acolhedor e a bela vista para a baía de Guanabara, com os barcos do clube saindo para pas­seios.

A passagem de Rachel de Quei­roz pela Ilha do Governador dei­xou marcas até hoje. O professor e historiador Jaime Moraes, em seu blog “O Passado no Presente”, conta e ilustra partes desse tempo. O jornalista J.C. Cardoso, autor do site “Toponímia Insulana”, que ex­plica a origem dos nomes da Ilha do Governador, lem­bra que no Quebra- Coco há uma rua chamada Caminho de Pedras, uma das obras da imortal Rachel de Queiroz. Ele sugere ainda que a pracinha na Cova da Onça em frente à casa onde Rachel residiu, e que aparentemen­te não possui no­me, receba o nome dessa ilustre ex-moradora da Ilha, numa justíssima homenagem.

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J.C. Cardoso, na pracinha em frente à casa (hoje uma vila) onde morou Rachel

Mas o Jornal GOLFINHO desco­briu uma antiga moradora da Ilha que conheceu Rachel de Queiroz pessoalmente. Trata-se da professora de Psicologia Edu­cacional, Currículo e Metodologia de Pesquisas Educa­cionais – e tam­bém consultora da Unesco – Elza He­lena Soares, hoje residindo nos Es­tados Unidos, onde trabalha em uma universidade.

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Elza Helena Soares: quando adolescente, entrevistou Rachel de Queiroz

— Eu tinha 14 anos em 1977 e estuda­va na Escola Muni­cipal Holanda, no Guarabu, e fui fazer um curso eletivo no Centro Escolar Mu­nicipal Anísio Teixei­ra, na verdade um minicurso de Jor­nalismo. Lá conheci outras crianças que também adoravam ler e estudar. Li “O Quinze”, da Rachel, e chorei todas as lágrimas dos meus olhos – recorda-se Elza.

Sua professora, Nilma Gonçalves, que morava na Rua Espumas e fazia doutorado, convidou Rachel para ser entrevistada por seus alunos e ela gentilmente aceitou.

— Eu fui escolhida para fazer as pri­meiras perguntas porque eu era a mais afetada pela força devastadora do livro. Indaguei como deveria chamá-la. Ela disse: “De você, porque você vem de Vossa Mercê; é uma hon­ra ser chamada de você”. Achei linda essa frase daquela nordestina linda, calmíssima, de voz mansa e pele finís­sima… Ela usava um vestido com um cinto do mesmo tecido, sandália de couro simples, ócu­los simples. Tudo requintadamente simples…

Elza conta que sua segunda per­gunta a Rachel foi porque ela escrevia sobre coisas duras, sofridas e até feias, como a seca.

— Eu estava tão em fluo que meu cérebro deve ter fechado. Ela sorriu e me disse: “Você pensa que o que escrevi é forte e feio porque sua re­alidade é bonita e o belo é o que você conhece. Mas eu garanto a você que o que escrevi no Quinze é bonito e até romântico em relação à realidade da seca. Eu escrevo com amor; então, eu amenizo a dor. Eu não escolhi es­crever sobre a seca, a seca me escolheu porque eu sei escre­ver sobre ela.”

Uma terceira insulana com ligação muito forte com a obra de Rachel de Queiroz é a jorna­lista e publicitária Valéria de Sá, mo­radora do Zumbi.

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Valéria de Sá com o livro “O Galo de Ouro”, inspirado em seu padrinho

— Meu padrinho, Manuel de Almei­da, popularmente conhecido por seu Neco, e sua espo­sa, Amanda, eram vizinhos da Rachel de Queiroz na Cova da Onça. Ele tinha um centro espíri­ta, mas também já havia trabalhado como bicheiro. Foi nesse meu padri­nho que a Rachel se inspirou para escrever seu único livro cuja história se passa na Ilha do Governador, “O Galo de Ouro”. No livro, Seu Neco, um personagem mui­to rico, ganhou o nome de Mariano. O também escri­tor Antonio Carlos Villaça, na orelha do livro, escreveu que “o prefácio em que Rachel nos fala sobre a Ilha do Governador está entre as páginas mais importantes que ela escreveu em qualquer tem­po”.

O livro “O Galo de Ouro”, escrito em 1950 (e publi­cado em folhetins pela revista “O Cruzeiro”) só foi editado como tal 35 anos depois, pela José Olym­pio Editora. Com direito, inclusive, a uma poesia de Manuel Bandeira, feita exclusiva­mente para a cea­rense – e ousamos dizer: também in­sulana! – Rachel de Queiroz.

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