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 Edição Novembro de 2011
 


RAIZ DA ILHA
Nesta coluna, os moradores contam histórias da Ilha de antigamente

Luiz Roberto Dutra

Aos 79 anos, o taxista Luiz Roberto Dutra recorda com saudade os momentos em que passou na Ilha do Governador ao lado da família e dos muitos amigos que fez ao longo de sete décadas morando no bairro. Trabalhando desde 1970 no ponto do Casa Show, Dutra – como é conhecido – leva uma vida pacata, assim como era quando mudou-se para cá aos 4 anos de idade.

A família de Dutra veio de Campo Grande para a Ilha em 1936, logo após seu pai comprar por mil réis um terreno no número 275 da Rua Ipiru. Ele, seus pais e os seis irmãos se mudaram na esperança de dias melhores.

Logo assim que chegou à Ilha ele se encantou pelo bairro. “Bastava andar um pouquinho para sair na praia. Lá, nós pescávamos cocoroca, sardinha, tainha e siri. Para pegar camarão, era só esperar a maré baixar” – lembra Dutra, completando ainda que também costumava pescar na Praia do Engenho Velho.

A lenha para o fogão era retirada das árvores que ficavam no final Rua Os Sinos. “Íamos de bote pegar a madeira e passávamos em frente ao Iate Clube Jardim Guanabara”. Já a água para cozinhar os alimentos vinha da fonte que ficava em frente à Praia da Bica.

Dutra estudou na extinta escola Joaquim Abílio Borges, na Rua Alberto Maranhão, no Jardim Guanabara, e na Cuba, na Praia do Zumbi. Nesta época, nosso Raiz da Ilha de outubro costumava jogar bola com os amigos na Estrada da Bica, no terreno onde hoje fica um condomínio.

Aos 10 anos, Dutra chegou a ser sacristão da Igreja Nossa Senhora de Nazaré e aumentou ainda mais a sua fé. “As missas de domingo da São José Operário eram celebradas no pátio dos bombeiros” – revela.

NA DÉCADA DE 1950, DUTRA COSTUMAVA FREQUENTAR A PRAIA DA BICA

Dutra começou a trabalhar nos Correios aos 16 anos e conheceu a Ilha inteira. “Havia uma agência na Rua Formosa do Zumbi, onde antes ficava a delegacia do bairro” – comenta. Nos finais de semana, ele e seus amigos assistiam a filmes de bangue-bangue nos três cinemas da Ilha: na Ribeira, no Guarabu e na Freguesia.

- Só depois surgiu o Cine Mississipi, na Estrada da Cacuia, no terreno onde hoje está o Bradesco – revela.

Na inauguração da ponte, em 1949, Dutra e seus amigos percorreram, de bicicleta, todo o trajeto até a fábrica de sabão UFE, na Avenida Brasil. Já as distâncias maiores na Ilha eram feitas de bonde. “As ruas não tinham calçamento, deixávamos nossa bicicleta na rua e dormíamos com a janela aberta”. Dutra também gostava de jogar bola com os amigos. O lugar predileto dele e de sua turma era no Clube Flexeiras, em Tubiacanga. “Cheguei a jogar, inclusive, com o Brito, tricampeão mundial de futebol” – conta, orgulhoso.

Em 1967, Dutra passou por um enorme susto. A casa onde morava no Jardim Carioca pegou fogo. “Minha mãe morava na casa de baixo e, felizmente, não se feriu, mas eu perdi tudo” – recorda, destacando emocionado, que, nessa época, recebeu muita ajuda de familiares e amigos para reconstruir sua vida.

Dutra também trabalhou como barbeiro, foi cobrador, fiscal e motorista da Viação Paranapuan – quando a garagem da empresa ainda era na Estrada do Galeão, onde hoje é a concessionária Besouro Veículos. Além disso, ele foi funcionário da Shell. “Minha tarefa era rolar tambores de um lado para o outro do terreno”. Em 1970, Dutra começou a trabalhar como taxista no ponto da então recém-inaugurada Casas Sendas, que agora é o Casa Show, e está lá até hoje.

Dutra conheceu sua esposa, Joana D’Arc, durante uma viagem a Laranjal, em Minas Gerais. “Nos casamos em 1954 e, em 2004, comemoramos nossas Bodas de Ouro na Paróquia São José Operário. Ela trabalhou na pastoral da criança e ajudava em vários eventos na igreja. Quando ela faleceu, em 2008, inauguraram uma sala com o nome dela” – relembra, emocionado.

O QUE MUDOU PARA MELHOR: O crescimento do comércio.

O QUE MUDOU PARA PIOR: O aumento do número de assaltos.

Por Fábio Silva

 
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