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 Edição Julho de 2009

RAIZ DA ILHA
(Nº 45)

Nesta coluna, os moradores contam histórias da Ilha de antigamente

Alvaro Costa

 


PRAIA DA GUANABARA, COM A PRAÇA CALCUTÁ À DIREITA
PRAIA DA ROSA, DIVISA COM PRAIA DAS PELÔNIAS, EM 1943

“A Ilha do Governador foi o bairro que eu escolhi para morar”. Esta foi uma das frases mais impactantes do comerciante português Alvaro Costa, de 77 anos, morador há quase quatro décadas do Zumbi e escolhido para ser o nosso Raiz da Ilha de julho. Ele chegou ao Brasil quando tinha apenas cinco anos de idade e o bairro de São Cristóvão foi o primeiro onde morou. De origem muito humilde, Alvaro conheceu, aos 15 anos, uma linda carioca chamada Zenalva, que morava em Pilares e com quem namorou e casou-se alguns anos depois.
Durante esse namoro, os pais dela costumavam visitar a Ilha nos finais de semana e ele ia junto.
- Gostava de frequentar as praias do bairro, principalmente a de São Bento, que era tão limpa que, mesmo com água pela cintura, dava para ver o fundo do mar - acrescentou.
Na década de 70, Alvaro construiu um palacete em Bonsucesso para sua esposa, mas ela não gostava do lugar. Um belo dia, o casal estava passeando pela Ilha e viu uma casinha humilde e abandonada na Rua Serrão, no Zumbi.
- Os olhos da Zenalva brilharam e ela falou com firmeza que queria morar ali de qualquer jeito. Eu fiquei indignado, pois tinha acabado de construir uma casa dos sonhos para ela. Falei que iríamos morar ali, mas que não iria fazer nenhuma reforma. Mesmo assim, ela topou na hora.
O tempo foi passando e Alvaro descobriu que aquela casa era o lugar ideal para viver e criar sua filha mais nova, Ana Lucia. Foi ali que nasceu Juliana, sua neta caçula, e onde seus outros cinco netos brincavam e tomavam banho de piscina nas férias e nos finais de semana. Cheio de boas recordações, nosso Raiz da Ilha deste mês falou que não pretende se mudar jamais dali.
No inicio da década de 90, Alvaro construiu um amplo salão de festas no terraço, chamado Salão e Bufet Juliana, onde realizava eventos de 15 anos, casamentos e outras comemorações. Foram 15 anos trabalhando com festas e, nesse tempo, conheceu várias pessoas especiais, fez novas amizades e recebeu muitos amigos em reuniões familiares. Sempre muito exigente, os funcionários, na sua ausência, costumaram chamá-lo de “Xerife”.
Mas Alvaro não era tão rude assim. Prova disso são os inúmeros amigos que fez ao longo desses anos, como Mauro, Maria do Carmo e Célia (já falecidos), Onório, Mário, Fernanda e Alcir. Nas horas livres, ele costuma ir ao Mundial do Cacuia, à feira da Ribeira e, como bom português, não dispensa o vinho e os tradicionais bolinhos do Rei do Bacalhau e a pizza sabor portuguesa da pizzaria Na Lenha, no Zumbi. Aos domingos, o aposentado não abre mão do frango da padaria da Sandra, que também fica na Rua Serrão.
Por ser um dos fundadores do Cordão da Bola Preta – um dos maiores e mais tradicionais blocos carnavalescos do Rio de Janeiro – o carnaval tornou-se uma de suas maiores paixões. Ele costumava frequentar os bailes noturnos com seus vizinhos e amigos, como o casal Lucy e Newton. Alvaro gostava também de jantar no antigo Bicão, que agora é o La Playa, na Praia da Bica.
Antes de construir o salão de festas, Alvaro foi camelô no Aterro do Cocotá. Nos finais de semana, ele montava uma barraca com sua esposa e vendia bonecas de porcelana feitas por ela própria.
- Foi uma fase muito difícil da nossa vida, mas, graças a Deus, foi superada com sabedoria e muito trabalho.
Mesmo declarando seu amor incondicional pela Ilha, Alvaro revelou que sente falta de como o bairro era antigamente.
- Quando vim morar aqui, a Ilha era tão segura e tranquila que o portão de entrada da minha casa não tinha trinco. Eu nadava na Praia da Engenhoca com os peixes e minha filha mais nova, ainda criança, andava pelo bairro sozinha.
O QUE MUDOU PARA MELHOR: O desenvolvimento da Ilha.
O QUE MUDOU PARA PIOR: O trânsito e a violência.

   
 
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