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 Edição Maio de 2008
  RAIZ DA ILHA
Nesta coluna, os moradores contam histórias da Ilha de antigamente
 
Pheris Rumanos
   

O que podemos dizer do nosso Raiz da Ilha deste mês? Assim que olhamos para Pheris Abrão Rumanos, vemos um senhor com cabelos brancos e de sorriso fácil, passando muita ternura e sabedoria. Mas este insulano é muito mais do que isso. Pheris nasceu no dia 10 de outubro de 1936, dentro de uma quitanda no bairro do Zumbi: “Mamãe foi fazer compras e, de repente, entrou em trabalho de parto. Por sorte estava no local uma lavadeira que me trouxe ao mundo” - revela.

Pheris viveu nesse bairro até os 4 anos, mudando-se depois para o Cocotá, próximo à Igreja São Sebastião. Em 1950, ele se mudou para uma casa na Rua Tenente Cleto Campelo, onde vive até hoje.

- Estou nesta casa desde menino e não saberia viver em outro lugar. Tínhamos no quintal abacateiro, mangueira e goiabeira, além de plantação de legumes e verduras que saíam direto do pé para os nossos pratos.

Pheris freqüentou três escolas na Ilha: Abeilard Feijó, Rotary e Mendes de Moraes. “Sinto saudades até hoje dos tempos em que jogava futebol com meus amigos no ginásio do Mendes. Nós nos divertíamos demais, além, é claro, das amizades que fiz”. Ele relembra que todos os dias ia para a escola de bonde, o meio de transporte mais utilizado na época.

- Adorava entrar e sair do bonde em movimento e, em conseqüência disto, sempre perdia os objetos que carregava” – confessa.

Pheris conta que uma das coisas de que sente mais saudade na Ilha antiga são as amizades e do valor que se dava à elas: “Quando era jovem, todos os meus amigos freqüentavam a casa uns dos outros. Se um de nós ficasse doente, todos sabiam e se prontificavam a ajudar. Hoje em dia, devido ao tempo e à distância, muitas vezes um amigo fica doente e eu nem fico sabendo” - relata.

Aos 15 anos, Pheris entrou de sócio do Esporte Clube Cocotá, que se tornou um de seus refúgios prediletos: “Sempre que podia ia ao clube jogar futebol. Nos fins de semana, gostava de ir aos bailes, dançar e paquerar”. Ele continua sócio do clube até hoje, e todos os domingos de sol, freqüenta a piscina com os netos e assiste a partidas de futebol.

Em 1955, Pheris entrou para o serviço militar: “Tinha grande fascínio pela vida militar, admirava demais todos os homens que serviam e defendiam o nosso país” – recorda Pheris, que serviu na Base Aérea do Galeão, e, depois de seis meses, foi transferido para a Escola de Comando da Aeronáutica, onde trabalhava durante o dia e à noite fazia cursos de especialização para Sargento.

Pheris passou dois anos na Aeronáutica e, em 1957, começou a trabalhar como comerciante, abrindo sua própria quitanda, na Praia de Olaria, que ele manteria até 1970. Em 1963 ele conheceu Neuza, que, mais tarde, se tornaria sua esposa. Ela, que nasceu no Rio mas morava em São Paulo, é o eterno amor de sua vida.

- Desde o momento em que a vi, sabia que passaríamos o resto da vida juntos e nem a distância conseguiria nos separar – confessa.

Depois de dois anos, Neuza deixou seu emprego em São Paulo, retornou definitivamente para o Rio e os dois se casaram. Dessa união nasceram Valéria, hoje com 41 anos, Simone, de 39, e Abrão, de 37, além de dois netos: Natália, de 12 anos, e Felipe, de 7.

Em 1971 Pheris começou a trabalhar como balconista na Casa Castor. Depois foi promovido a encarregado e chegou a chefe de depósito. Em 1993 ele sofreu um enfarto e foi internado no Hospital do Fundão, ficando impossibilitado de trabalhar. Após cinco anos, ele conseguiu se aposentar.

Atualmente, Pheris se divide entre o cuidado com os netos, as horas de lazer no Esporte Clube Cocotá e as atividades na Igreja: além de participar da missa todos os domingos na Igreja São Sebastião, Pheris faz vigília noturna de 12 horas todo o dia 2 de cada mês na Igreja Matriz de Santana, no Centro.

- Faço isso com o maior prazer, sem sacrifício nenhum. A sensação que tenho quando entro na igreja é a de bem-estar, por ficar mais perto de Deus - comenta.

Nos finais de semana, Pheris gosta de ir ao Ilha Plaza com a família e freqüentar restaurantes. Ele lamenta que hoje em dia as praias da Ilha estejam muito poluídas: “Quando era menino, as praias do Cocotá eram superconcorridas. Tanto que pessoas de fora da Ilha vinham para cá. Eu me lembro que pescava com sacos de batata, dividindo-os ao meio para servir de rede, pegando peixes e camarões. Era uma ótima forma de lazer” - relembra.

O QUE MUDOU PARA MELHOR: A educação e o crescimento do comércio e da infra-estrutura do bairro.

O QUE MUDOU PARA PIOR: A violência, que prejudica a vida de todos, contribuindo, inclusive, para a desvalorização das propriedades que acabaram ficando próximas às favelas.


NA DÉCADA DE 80, PHERIS AINDA JOGAVA NO GRUPO DOS 40

 
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