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 Edição Maio de 2008
  Assassino de Maria Eduarda estava em liberdade condicional...
 

JOVEM INSULANA, QUE DOOU TODOS OS SEUS ÓRGÃOS, ADORAVA ANIMAIS E QUERIA SER PILOTO DE CAÇA


MARIA EDUARDA NO SÍTIO EM MAGÉ (QUE FOI POSTO À VENDA),
ALIMENTANDO AS GALINHAS, COM O CAVALO “CAMPEÃO” E COM DOIS
CABRITINHOS RECÉM-NASCIDOS

 

Mais um lar - desta vez na Ilha do Governador - foi arrasado por um bandido já condenado por outros crimes, que deveria estar cumprindo sua pena atrás das grades, mas que gozava de liberdade condicional, concedida pela Justiça, de acordo com as leis retrógradas do Brasil.

“Vi que os primeiros tiros só pegaram no carro. Atirei de novo e ouvi um grito. Vi
quando o carro parou, uns 30 metros adiante, e a mãe passou para o banco de trás. Pensei: amanhã eu compro o jornal para ver quem matei...”


(Declaração do assassino, ao ser preso.)

Maria Eduarda Cavalcanti Romano, que completaria 15 anos dia 5 de maio, teve brutalmente interrompida sua brilhante trajetória de vida, quando voltava do sítio da família em Magé, acompanhada dos pais e do irmão Carlos Eduardo, de 10 anos, dia 16 de março.

- Queríamos assistir à missa na Igreja São José Operário, como fazemos todos os domingos, por isso saímos do sítio antes do meio-dia. Tinha chovido muito e a estrada de terra estava cheia de poças d’água. Dois homens caminhavam à nossa frente e meu marido passou lentamente por cima da poça, para não respingar água neles. Aí eles apontaram revólveres para nós. Assustado e surpreso, meu marido acabou de passar pela poça, mas não tentava fugir. Um deles, então, atirou em nós, por trás - contou para o Jornal GOLFINHO, com exclusividade, Elizabeth Romano, mãe de Maria Eduarda, no pequeno bar, na Estrada do Galeão, em que ela e o marido trabalham.

“Reconheço que é
muito egoísmo meu, mas eu queria ela viva, mesmo que ficasse paralítica. Agora, só beijando suas roupas que eu sinto o
cheirinho dela...”


(Elizabeth Romano, mãe.)

O irmão Carlos Eduardo desesperou-se: “Pai, acertaram a Maria Eduarda! Ela está sangrando!” Carlos Romano, então, correu para o hospital. No primeiro, não havia recursos. Foi transferida para o de Saracuruna, onde ficou internada até o dia 30 de março, vindo a falecer. Se sobrevivesse, ficaria tetraplégica.

O pai lembra que, uma semana antes da tragédia, por causa de uma carteira de identidade, o assunto doação de órgãos veio à baila. “Ela me perguntou se eu era doador e eu disse que não, que não queria o meu corpo cheio de buracos. Ela então me disse: ‘Deixa de ser egoísta, pai! Se a gente pode fazer o bem para os outros, por que não fazê-lo? Se me acontecer alguma coisa, um dia, eu quero que vocês doem todos os meus órgãos.’” A família respeitou o desejo de Maria Eduarda: suas córneas, coração e rim hoje ajudam outras pessoas a viverem melhor.

“Durante todo esse tempo de agonia, não apareceu ninguém desse pessoal dos direitos humanos para nos prestar qualquer solidariedade. Se o morto fosse um bandido, com toda a certeza eles se manifestariam. Os governantes têm de fazer alguma coisa, pelo amor de Deus!”

(Elizabeth Romano, mãe.)

- Eu era a melhor amiga dela. Sempre a levava e a buscava na escola, o Colégio MV1 Galeão, onde ela cursava a primeira série do Ensino Médio. Umas colegas, certa vez, mexeram com ela, dizendo que isso era “um mico”. Ela me disse que respondeu que não tinha vergonha nenhuma disso, pois eu era, realmente, a sua melhor amiga - conta, chorando, Elizabeth, que passará o próximo Dia das Mães, 11 de maio, apenas com o filho Carlos Eduardo, que, ainda muito chocado, está recebendo tratamento psicológico.

Uma vez, Maria Eduarda leu que só existia uma mulher pilotando caças na Aeronáutica. Disse logo: “Eu vou ser a segunda piloto da FAB”. E estudava muito para isso, conta a mãe:
- Uma amiguinha dela disse que agora, certamente, ela está voando no céu. Ela gostava de todas as matérias e estava terminando o curso básico de Inglês no Wizard. Se não fosse a religião, a nossa fé, não sei o que seria da gente - desabafa.

 

Enquanto isso, em Brasília...

ASSOBERBADOS COM A TAREFA DE AUMENTAR O PRÓPRIO SALÁRIO, DEPUTADOS E SENADORES NÃO TÊM TEMPO DE ATENDER ANSEIOS DA POPULAÇÃO

ALZIR RABELO (*)

O assassinato de Maria Eduarda guarda algumas tristes coincidências com o de outra garota, Gabriela. Ambas tinham 14 anos, eram apegadíssimas à família, foram mortas no mês de março e por bandidos que, já condenados por outros crimes, deveriam estar presos, mas tinham recebido um bondoso passaporte da Justiça para sair da cadeia bem mais cedo, coitadinhos...

Santiago e Cleyde, pais da menina Gabriela Prado Maia Ribeiro, assassinada em 25 de março de 2003 na estação São Francisco Xavier do metrô, encontraram forças para travar uma inglória luta contra a impunidade. Além de criarem o site www.gabrielasoudapaz.org.br, fizeram uma campanha para modificar as leis penais, intitulada “Diga não à impunidade”, através da qual elaboraram um abaixo-assinado com um milhão e 300 mil assinaturas de eleitores de todo o Brasil, entregue ao Congresso Nacional em 8 de março de 2006. O Iate Clube Jardim Guanabara e o Jornal GOLFINHO deram sua colaboração para a arrecadação de parte das assinaturas, durante um show do Cidade Negra aqui no clube, quando o vocalista Toni Garrido também hipotecou sua solidariedade à idéia. O abaixo-assinado não pede nada demais: não solicita pena de morte, prisão perpétua ou aumento das penas. Roga tão-somente o óbvio: que os condenados por crimes violentos não sejam soltos antes de acabarem de cumprir suas penas.

Esse projeto de emenda popular, prevista na Constituição, recebeu a denominação de PL-7053/2006 - e até hoje, 790 dias depois, dorme, empoeirado, em alguma gaveta dos ocupadíssimos parlamentares. Parlamentares que, entretanto, são bastante ágeis para, entre outras coisas, aumentar o próprio salário, como vemos freqüentemente, inclusive dos assessores, como ocorreu agora, com a verba de seus gabinetes passando para R$ 60 mil, para cada deputado.

Paralelamente a isso, a deputada Maria do Rosário (PT-RS), preocupadíssima com a violência, apresentou projeto tornando criminoso... o ato de um pai dar uma palmada em um filho! E o Ministro da Justiça, Tarso Genro, para não ficar atrás, criou o Pronasci, para combater a violência no Brasil, claro. Só que um dos itens desse programa prevê o pagamento de uma bolsa (essa história de bolsa já virou fixação!) para as famílias de menores que cometerem crimes. É, é isso mesmo! De certa forma, pode ser chamada de Bolsa “Mata-que-o-Governo-Contrata”. Ou então, Bolsa “Apaga-que-o-Governo-Te-Paga”.

Pobre povo brasileiro! Quantos João Hélio, Gabriela e Maria Eduarda, entre tantas outras crianças (sem falar nos adultos), precisarão ser barbaramente assassinadas para que as autoridades despertem desse estado de marasmo cúmplice?

(*) Editor

 

 
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