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Mais
um lar - desta vez na Ilha do Governador - foi arrasado
por um bandido já condenado por outros crimes,
que deveria estar cumprindo sua pena atrás das
grades, mas que gozava de liberdade condicional, concedida
pela Justiça, de acordo com as leis retrógradas
do Brasil.
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Vi
que os primeiros tiros só pegaram no carro.
Atirei de novo e ouvi um grito. Vi
quando o carro parou, uns 30 metros adiante, e
a mãe passou para o banco de trás.
Pensei: amanhã eu compro o jornal para
ver quem matei...
(Declaração do
assassino, ao ser preso.)
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Maria
Eduarda Cavalcanti Romano, que completaria 15 anos dia
5 de maio, teve brutalmente interrompida sua brilhante
trajetória de vida, quando voltava do sítio
da família em Magé, acompanhada dos pais
e do irmão Carlos Eduardo, de 10 anos, dia 16
de março.
- Queríamos assistir à missa na Igreja
São José Operário, como fazemos
todos os domingos, por isso saímos do sítio
antes do meio-dia. Tinha chovido muito e a estrada de
terra estava cheia de poças dágua.
Dois homens caminhavam à nossa frente e meu marido
passou lentamente por cima da poça, para não
respingar água neles. Aí eles apontaram
revólveres para nós. Assustado e surpreso,
meu marido acabou de passar pela poça, mas não
tentava fugir. Um deles, então, atirou em nós,
por trás - contou para o Jornal GOLFINHO, com
exclusividade, Elizabeth Romano, mãe de Maria
Eduarda, no pequeno bar, na Estrada do Galeão,
em que ela e o marido trabalham.
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Reconheço
que é
muito egoísmo meu, mas eu queria ela viva,
mesmo que ficasse paralítica. Agora, só
beijando suas roupas que eu sinto o
cheirinho dela...
(Elizabeth
Romano, mãe.)
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O
irmão Carlos Eduardo desesperou-se: Pai,
acertaram a Maria Eduarda! Ela está sangrando!
Carlos Romano, então, correu para o hospital.
No primeiro, não havia recursos. Foi transferida
para o de Saracuruna, onde ficou internada até
o dia 30 de março, vindo a falecer. Se sobrevivesse,
ficaria tetraplégica.
O pai lembra que, uma semana antes da tragédia,
por causa de uma carteira de identidade, o assunto doação
de órgãos veio à baila. Ela
me perguntou se eu era doador e eu disse que não,
que não queria o meu corpo cheio de buracos.
Ela então me disse: Deixa de ser egoísta,
pai! Se a gente pode fazer o bem para os outros, por
que não fazê-lo? Se me acontecer alguma
coisa, um dia, eu quero que vocês doem todos os
meus órgãos. A família
respeitou o desejo de Maria Eduarda: suas córneas,
coração e rim hoje ajudam outras pessoas
a viverem melhor.
Durante
todo esse tempo de agonia, não apareceu
ninguém desse pessoal dos direitos humanos
para nos prestar qualquer solidariedade. Se
o morto fosse um bandido, com toda a certeza
eles se manifestariam. Os governantes têm
de fazer alguma coisa, pelo amor de Deus!
(Elizabeth
Romano, mãe.)
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-
Eu era a melhor amiga dela. Sempre a levava e a buscava
na escola, o Colégio MV1 Galeão, onde
ela cursava a primeira série do Ensino Médio.
Umas colegas, certa vez, mexeram com ela, dizendo que
isso era um mico. Ela me disse que respondeu
que não tinha vergonha nenhuma disso, pois eu
era, realmente, a sua melhor amiga - conta, chorando,
Elizabeth, que passará o próximo Dia das
Mães, 11 de maio, apenas com o filho Carlos Eduardo,
que, ainda muito chocado, está recebendo tratamento
psicológico.
Uma
vez, Maria Eduarda leu que só existia uma mulher
pilotando caças na Aeronáutica. Disse
logo: Eu vou ser a segunda piloto da FAB.
E estudava muito para isso, conta a mãe:
- Uma amiguinha dela disse que agora, certamente, ela
está voando no céu. Ela gostava de todas
as matérias e estava terminando o curso básico
de Inglês no Wizard. Se não fosse a religião,
a nossa fé, não sei o que seria da gente
- desabafa.
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Enquanto isso, em Brasília...
ASSOBERBADOS
COM A TAREFA DE
AUMENTAR O PRÓPRIO SALÁRIO, DEPUTADOS
E SENADORES NÃO TÊM TEMPO DE ATENDER
ANSEIOS DA POPULAÇÃO
ALZIR
RABELO (*)
O assassinato
de Maria Eduarda guarda algumas tristes coincidências
com o de outra garota, Gabriela. Ambas tinham
14 anos, eram apegadíssimas à família,
foram mortas no mês de março e por
bandidos que, já condenados por outros
crimes, deveriam estar presos, mas tinham recebido
um bondoso passaporte da Justiça para sair
da cadeia bem mais cedo, coitadinhos...
Santiago e Cleyde, pais da menina Gabriela Prado
Maia Ribeiro, assassinada em 25 de março
de 2003 na estação São Francisco
Xavier do metrô, encontraram forças
para travar uma inglória luta contra a
impunidade. Além de criarem o site www.gabrielasoudapaz.org.br,
fizeram uma campanha para modificar as leis penais,
intitulada Diga não à impunidade,
através da qual elaboraram um abaixo-assinado
com um milhão e 300 mil assinaturas de
eleitores de todo o Brasil, entregue ao Congresso
Nacional em 8 de março de 2006. O Iate
Clube Jardim Guanabara e o Jornal GOLFINHO deram
sua colaboração para a arrecadação
de parte das assinaturas, durante um show do Cidade
Negra aqui no clube, quando o vocalista Toni Garrido
também hipotecou sua solidariedade à
idéia. O abaixo-assinado não pede
nada demais: não solicita pena de morte,
prisão perpétua ou aumento das penas.
Roga tão-somente o óbvio: que os
condenados por crimes violentos não sejam
soltos antes de acabarem de cumprir suas penas.
Esse projeto de emenda popular, prevista na Constituição,
recebeu a denominação de PL-7053/2006
- e até hoje, 790 dias depois, dorme, empoeirado,
em alguma gaveta dos ocupadíssimos parlamentares.
Parlamentares que, entretanto, são bastante
ágeis para, entre outras coisas, aumentar
o próprio salário, como vemos freqüentemente,
inclusive dos assessores, como ocorreu agora,
com a verba de seus gabinetes passando para R$
60 mil, para cada deputado.
Paralelamente a isso, a deputada Maria do Rosário
(PT-RS), preocupadíssima com a violência,
apresentou projeto tornando criminoso... o ato
de um pai dar uma palmada em um filho! E o Ministro
da Justiça, Tarso Genro, para não
ficar atrás, criou o Pronasci, para combater
a violência no Brasil, claro. Só
que um dos itens desse programa prevê o
pagamento de uma bolsa (essa história de
bolsa já virou fixação!)
para as famílias de menores que cometerem
crimes. É, é isso mesmo! De certa
forma, pode ser chamada de Bolsa Mata-que-o-Governo-Contrata.
Ou então, Bolsa Apaga-que-o-Governo-Te-Paga.
Pobre povo brasileiro! Quantos João Hélio,
Gabriela e Maria Eduarda, entre tantas outras
crianças (sem falar nos adultos), precisarão
ser barbaramente assassinadas para que as autoridades
despertem desse estado de marasmo cúmplice?
(*) Editor
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