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 Edição Abril de 2008
  Raiz da Ilha
Número 36
Nesta coluna, os moradores contam histórias da Ilha de antigamente
   
Zeca Drummond
ZECA E SEUS AMIGOS COSTUMAVAM PEGAR OS BONDES PARA ASSISTIREM ÀS SESSÕES NOS CINEMAS DA RIBEIRA E FREGUESIA
       
   

Sabe aquele tipo de promoção “pague 1 leve 2”? Algo semelhante aconteceu com o nosso Raiz da Ilha de abril, José Rubens Drummond, 60 anos, conhecido no Iate Clube Jardim Guanabara como Zeca da Náutica, que, em 1949, mudou-se de Sampaio, onde nasceu, para a Ilha, em busca de melhoria na saúde. Além disto, encontrou também o que até hoje denomina de “meu paraíso particular”.
Nascido em 10 de outubro de 1947, técnico em administração e há 15 anos trabalhando como Gerente de Náutica do Iate, Zeca, aos dois anos, sofria de bronquite asmática. Após uma consulta médica, foi sugerido colocá-lo para praticar natação. Seus pais resolveram mudar-se para a Ilha: “Meu avô materno tinha duas casas aqui: uma onde ele morava e outra de veraneio, na Praia da Bandeira, que terminou virando o nosso novo lar. Em 52, toda a família passou a viver na Ilha, seguindo os passos de meu avô, que sempre adorou este lugar” – explica.
Deste período, Zeca lembra-se da fácil adaptação: “Logo que cresci um pouco e passei a ir para a rua sozinho, comecei a aproveitar mais as praias, que eram maravilhosas e absolutamente cristalinas, com direito a cavalos-marinhos, camarões, siris e peixes diversos. Vendo as atuais condições degradantes das praias do bairro, me desperta grande tristeza e natural saudosismo” - declara.
Outras lembranças de Zeca são as amizades que cultivou e as experiências que viveu com os companheiros de infância/adolescência: “Lá pelos anos 60, recordo-me das sessões de filmes que assistíamos no galpão do senhor Fontana, proprietário da Água Mineral Fontana, que oferecia comes-e-bebes para a vizinhança todas as sextas; além dos filmes, é claro. Era muito amigo dos filhos dele, até porque a maioria dos jovens estudava no Olavo Bilac, no Mendes de Morais ou no Colégio Governador, no Cocotá, como foi o nosso caso.
Segundo o próprio Zeca, uma das programações mais badaladas era a ida aos cinemas da Ilha, que totalizavam três: “Nossos pontos de encontro mais constantes eram os cinemas, que ficavam na Ribeira e na Freguesia. Os ‘Festivais Tom & Jerry’, por exemplo, serviam mesmo é para irmos namorar. Na maioria das vezes, íamos de bonde para lá, já que saltávamos na porta dos cinemas” - destaca.
As linhas do bonde não serviram apenas para ajudar na expansão do bairro, mas também para uma das estripulias de Zeca e seus amigos: “Usávamos as linhas para fazermos o cerol para nossas pipas. Colocávamos o pó de vidro na linha, dentro de meias elásticas femininas, e corríamos para pegá-lo após a passagem do bonde, já que carro nenhum poderia passar depois, ou levaria todo o pó nos pneus” – diverte-se.
No auge de seus 16 anos, Zeca diz que ele e seus amigos se esbaldavam nas peladas diárias que aconteciam no campo do Hugo, proprietário da Agência Hugo de Automóveis. “Em 1963 tive o prazer de estar ao lado de muitos artistas. Destaco um que foi genial: o Gonzaguinha, que veio do Estácio para morar com o pai, o Gonzagão. Em seguida, começamos a estudar juntos e reuníamos os amigos na Praia da Bandeira, onde ficávamos proseando e tocando músicas. Por sinal, foi lá que nasceu a ‘O trem’, composição dele que ganhou um festival estudantil. Além desta canção, acompanhei a criação de várias outras que vieram a se tornar clássicos depois” – orgulha-se.
Zeca diz ainda que naqueles tempos todos na Ilha se socializavam mais, eram bem festeiros e que não havia um final de semana que não tivesse uma festa “hi-fi” na casa de um dos amigos. Isto quando não ocorriam os bailes no Jequiá, onde seu grupo ganhou um engraçado apelido: “Como sempre chegávamos atrasados ou arrumávamos confusões bobas nos bailes, fomos batizados de ‘Bloco Faz Vergonha’. Foi um período mágico para mim, tanto é que oficializei a relação com a minha esposa, Maria Helena, por lá, no Baile do Boi, no dia 19 de janeiro de 1970, véspera do feriado de São Sebastião. Hoje, estamos há 34 anos juntos, temos três filhos (Rodrigo, José Rubens e Mariana) e dois netos (João Pedro e Luís Felipe).”
Apesar de todo o saudosismo em relação aos velhos e bons tempos, Zeca diz que mudar daqui nunca lhe passou pela cabeça, e que este pensamento é consensual em toda a família: “Nós amamos a Ilha. Vim por um acaso, em busca de saúde, e encontrei o meu paraíso pessoal. Não saio daqui nem morto, pois já tenho o meu lugarzinho reservado lá no Cacuia” – encerra.
O QUE MUDOU PARA MELHOR: O transporte e o comércio.
O QUE MUDOU PARA PIOR: A degradação desenfreada das praias insulanas e as escassas opções de lazer no bairro.

 
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