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Não,
não se pode dizer que a culpa pela epidemia da
dengue no Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro,
seja exclusivamente de a, b ou c. Mas que tem muita
gente com culpa no cartório, ah, isso tem! Há
muitos anos que essa ameaça vem pairando sobre
a população, principalmente no verão.
Os recordes de casos foram em 2002, mas depois o número
de vítimas deu uma estabilizada e todos foram
se acomodando, mesmo com os freqüentes alertas
da imprensa quanto ao perigo de uma epidemia forte.
Parece que ninguém mais queria se preocupar com
ela, a impressão era que a dengue se constituía
numa ameaça que efetivamente não se concretizava.
E assim chegou o verão de 2008.
Não foi por falta de aviso, certamente. A rede
pública de hospitais - tanto da União
quanto do Estado e do Município do Rio -, já
bastante precária, desaparelhada de equipamentos
e de recursos humanos, sem conseguir dar conta de enorme
demanda, o ano inteiro, logicamente que não tinha
meios para suportar essa nova e enorme leva de doentes
- de todas as idades - que para ela acorreu. O resultado
todos nós estamos vendo aí: um caos completo!
Agora que a epidemia se estabeleceu de vez, providências
urgentes estão sendo adotadas, como a contratação
de médicos de outros estados, a implantação
de hospitais e tendas de hidratação pelas
Forças Armadas, a arregimentação
de mais pessoas para combater os focos do aedes, etc.
e tal. É o caso de perguntarmos: não teria
sido melhor se as autoridades - e aí incluo as
dos governos federal, estadual e municipal - tivessem
optado por medidas preventivas, para evitar que a situação
chegasse a esse ponto? Será possível que,
somente no Brasil, o poder público se comporte
dessa maneira?
Em todo esse contexto, cabe dizer que grande parte da
população também é culpada
pela epidemia. É triste reconhecer, mas é
enorme o número de pessoas que não preza
a higiene, que joga latinhas de cerveja e refrigerantes
pelas janelas dos automóveis e ônibus,
que despejam lixo nos rios e em terrenos baldios, por
exemplo. Esse tipo de pessoa, que existe em todas as
classes sociais, por acaso iria se preocupar em manter
garrafas viradas para baixo, em não deixar água
acumulada nos pratinhos das plantas, cisternas destampadas,
piscinas abandonadas, sem tratamento?
Os jornais e televisões vêm, há
muito, fazendo campanhas educativas sobre as causas
da dengue, de forma até exaustiva. Não
é possível que exista um carioca ou fluminense,
seja de que idade for, que não saiba as medidas
certas para combater a proliferação desse
terrível mosquito. Se a situação
está assim, a culpa não é só
dos governantes, mas também de grande parte da
população. Pena que tantas pessoas venham
sofrendo e até morrendo em conseqüência
dessa epidemia, principalmente crianças. Pessoas
até que, possivelmente, eram bastante cuidadosas
no combate às causas da dengue - mas, como o
mosquito não olha cor, idade, sexo, grau de instrução
ou de cidadania, foram vitimadas assim mesmo.
Quando se anda pelas ruas de Curitiba, por exemplo -
e não é só no Centro, não,
pela periferia também -, não se vêem
pontas de cigarro, tampinhas de refrigerantes, maços
de cigarro pelas calçadas. E não é
porque os garis de lá trabalhem mais rapidamente
do que os nossos, não. É porque os moradores
de lá não jogam mesmo lixo no chão.
Por que razão aqui no Rio não pode ser
igual?
Que a tragédia da dengue, pelo menos, deixe algumas
lições positivas para todos nós.
JOSÉ DE MORAES CORREIA NETO
Comodoro.
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