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 Edição Abril de 2008
  A PALAVRA DO COMODORO
 
Dengue: a crônica de uma epidemia anunciada
   

Não, não se pode dizer que a culpa pela epidemia da dengue no Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro, seja exclusivamente de a, b ou c. Mas que tem muita gente com culpa no cartório, ah, isso tem! Há muitos anos que essa ameaça vem pairando sobre a população, principalmente no verão. Os recordes de casos foram em 2002, mas depois o número de vítimas deu uma estabilizada e todos foram se acomodando, mesmo com os freqüentes alertas da imprensa quanto ao perigo de uma epidemia forte.
Parece que ninguém mais queria se preocupar com ela, a impressão era que a dengue se constituía numa ameaça que efetivamente não se concretizava. E assim chegou o verão de 2008.
Não foi por falta de aviso, certamente. A rede pública de hospitais - tanto da União quanto do Estado e do Município do Rio -, já bastante precária, desaparelhada de equipamentos e de recursos humanos, sem conseguir dar conta de enorme demanda, o ano inteiro, logicamente que não tinha meios para suportar essa nova e enorme leva de doentes - de todas as idades - que para ela acorreu. O resultado todos nós estamos vendo aí: um caos completo!
Agora que a epidemia se estabeleceu de vez, providências urgentes estão sendo adotadas, como a contratação de médicos de outros estados, a implantação de hospitais e tendas de hidratação pelas Forças Armadas, a arregimentação de mais pessoas para combater os focos do aedes, etc. e tal. É o caso de perguntarmos: não teria sido melhor se as autoridades - e aí incluo as dos governos federal, estadual e municipal - tivessem optado por medidas preventivas, para evitar que a situação chegasse a esse ponto? Será possível que, somente no Brasil, o poder público se comporte dessa maneira?
Em todo esse contexto, cabe dizer que grande parte da população também é culpada pela epidemia. É triste reconhecer, mas é enorme o número de pessoas que não preza a higiene, que joga latinhas de cerveja e refrigerantes pelas janelas dos automóveis e ônibus, que despejam lixo nos rios e em terrenos baldios, por exemplo. Esse tipo de pessoa, que existe em todas as classes sociais, por acaso iria se preocupar em manter garrafas viradas para baixo, em não deixar água acumulada nos pratinhos das plantas, cisternas destampadas, piscinas abandonadas, sem tratamento?
Os jornais e televisões vêm, há muito, fazendo campanhas educativas sobre as causas da dengue, de forma até exaustiva. Não é possível que exista um carioca ou fluminense, seja de que idade for, que não saiba as medidas certas para combater a proliferação desse terrível mosquito. Se a situação está assim, a culpa não é só dos governantes, mas também de grande parte da população. Pena que tantas pessoas venham sofrendo e até morrendo em conseqüência dessa epidemia, principalmente crianças. Pessoas até que, possivelmente, eram bastante cuidadosas no combate às causas da dengue - mas, como o mosquito não olha cor, idade, sexo, grau de instrução ou de cidadania, foram vitimadas assim mesmo.
Quando se anda pelas ruas de Curitiba, por exemplo - e não é só no Centro, não, pela periferia também -, não se vêem pontas de cigarro, tampinhas de refrigerantes, maços de cigarro pelas calçadas. E não é porque os garis de lá trabalhem mais rapidamente do que os nossos, não. É porque os moradores de lá não jogam mesmo lixo no chão. Por que razão aqui no Rio não pode ser igual?
Que a tragédia da dengue, pelo menos, deixe algumas lições positivas para todos nós.

JOSÉ DE MORAES CORREIA NETO
Comodoro.

 
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